Soltando as amarras...
O céu estava escuro e a lua, apesar de cheia, não iluminava, mas apenas garantia uma aura romântica àquela noite de quinta-feira. Ela já tinha percebido - sabia que já - mas não queria assumir a si mesma. Ainda guardava muitas inseguranças dentro de si e temia soltar as amarras de seu barco e deixá-lo ser levado pelo mar. As águas estavam plácidas e azuis. Ela podia confiar nelas, mas não queria enfrentar o risco de uma ressaca ou uma tempestade.
Olhando a lua, que teimosamente lhe parecia abrigar um "coelhinho", sentia que o barco se soltava. E o medo de se deixar ir ao alto mar ficava aos poucos para trás. Ela sabia que poderia enfrentar ressacas e tormentas. Já havia passado por elas e não fora fácil. Mas sobrevivera e saíra mais forte do mar revolto.
Ela já sabia - amava novamente. Não podia mais conter as amarras. Agradeceu ao luar por revelar-lhe o que já houvera vindo à tona. Desejou ser sempre guiada por aquela luz tênue e discreta, que a levaria longe, devagar.
E mergulhou...respeitando as águas, mas não deixando ser vencida por elas.
Chove. Que fiz eu da vida?Fiz o que ela fez de mim...De pensada, mal vivida...Triste de quem é assim!
Numa angústia sem remédioTenho febre na alma, e, ao ser,tenho saudade, entre o tédio,Só do que nunca quis ter...
Quem eu pudera ter sido,Que é dele? Entre ódios pequenosDe mim, 'stou de mim partido.Se ao menos chovesse menos!
Fernando Pessoa, 23-10-1931
