O Livro dos Dias

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Soltando as amarras...

O céu estava escuro e a lua, apesar de cheia, não iluminava, mas apenas garantia uma aura romântica àquela noite de quinta-feira. Ela já tinha percebido - sabia que já - mas não queria assumir a si mesma. Ainda guardava muitas inseguranças dentro de si e temia soltar as amarras de seu barco e deixá-lo ser levado pelo mar. As águas estavam plácidas e azuis. Ela podia confiar nelas, mas não queria enfrentar o risco de uma ressaca ou uma tempestade.

Olhando a lua, que teimosamente lhe parecia abrigar um "coelhinho", sentia que o barco se soltava. E o medo de se deixar ir ao alto mar ficava aos poucos para trás. Ela sabia que poderia enfrentar ressacas e tormentas. Já havia passado por elas e não fora fácil. Mas sobrevivera e saíra mais forte do mar revolto.

Ela já sabia - amava novamente. Não podia mais conter as amarras. Agradeceu ao luar por revelar-lhe o que já houvera vindo à tona. Desejou ser sempre guiada por aquela luz tênue e discreta, que a levaria longe, devagar.

E mergulhou...respeitando as águas, mas não deixando ser vencida por elas.

Chove. Que fiz eu da vida?Fiz o que ela fez de mim...De pensada, mal vivida...Triste de quem é assim!
Numa angústia sem remédioTenho febre na alma, e, ao ser,tenho saudade, entre o tédio,Só do que nunca quis ter...
Quem eu pudera ter sido,Que é dele? Entre ódios pequenosDe mim, 'stou de mim partido.Se ao menos chovesse menos!
Fernando Pessoa, 23-10-1931

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Solidão

"Digam o que disserem, o mal do século é a solidão, cada um de nós imerso em sua própria arrogância esperando por um pouco de afeição" - Esperando por mim, Legião Urbana

A solidão não é um estado da alma, é uma característica inerente ao ser. O solitário sente-se só mesmo entre amigos. E gosta de sentir-se só, sente prazer na angústia. Fecha os olhos ao ouvir uma cançaão e pensa, com melancolia, que ninguém pode entender o que ele sente. Fica feliz por isso, acredita-se especial e diferente. Assim vai vivendo, podendo estar rodeado de amigos, mas sentindo-se extremamente só, no seu íntimo, como se faltasse um outro coração para entendê-lo. Quando o solitário encontra uma pessoa a quem diz várias vezes, durante uma conversa - Sério, você também? - ele não deixa de sentir-se só. Mas passa a ter alguém com quem compartilhar a cultivada solidão.

"Às vezes quando duas pessoas estão juntas, apesar de falarem, o que elas comunicam silenciosamente uma à outra é o sentimento de solidão" - Clarice Lispector

sábado, fevereiro 05, 2005

Amar...não apenas verbo intransitivo

Quando os olhares insistem em se encontrar a todo momento, é difícil fugir. Se ao mais leve toque, o corpo flutua e o ar ao redor faz-se mais leve, não é fácil escapar. A luta pode ser exitosa se as vozes não soarem harmoniosas aos ouvidos um do outro. Se além de os sons serem agradáveis, as palavras parecerem palpáveis e doces, a luta é inútil e pode estar perdida.

Dizem que o perigo é possível de ser vislumbrado e o caminho que conduz a ele, desviado. Mas se os caminhos se desviam e desembocam no mesmo destino, não há saída: é preciso encarar a paixão. Vivê-la intensamente, respirar oxigênio rosa e alimentar-se de sons azuis é o melhor a se fazer.

Mas se a paixão é daquelas impossíveis, inviáveis, que podem ferir a outrem, é difícil entregar-se a ela. Guardá-la e esquecê-la em um arquivo dentro da memória também não é viável, ou ela voltará. O jeito é assumi-la homeopaticamente até que se esgote em si. É preciso vivê-la, mesmo que em silêncio.

A solução tortura e faz sangrar o coração sedento de intensidade. Mas é preciso fazer a paixão abandonar o corpo, pouco a pouco. Fazê-la esvair-se nos momentos em que os olhares se encontram, as mãos se esbarram e um abraço não pode ser contido. Gastar cada grama da paixão nas palavras ditas, músicas cantaroladas, sonhos que passeiam pelas mentes.

Se mesmo assim a paixão insistir em fixar residência, o único caminho que resta é o radical: tirá-la de dentro do peito, sem anestesiar o coração. Não ver para que os olhos não voltem a se encontrar, não tocar para que os sentidos não se sintam alimentados e instigados, não pensar e não recordar.

Dizem ainda que o tempo tudo apaga. Se a única saída for esta, é preciso agarrá-la: dar ao tempo a função que lhe cabe e seguir vivendo, não alimentando a paixão, aniquilando-a. O único cuidado é matar a paixão, não a capacidade de apaixonar-se.

"Mas o vento para quem você tinha entregue as velas ao deixar o porto não é mais aquele que, uma vez em alto mar, lhe convém. O amor, ainda jovem e pouco seguro de si, se fortifica com o uso: alimente-o bem, e, com o tempo, ele se tornará sólido. " - A Arte de Amar, Ovídio