Sonho familiar
Espreguiçou-se e não soube por quanto tempo estivera dormindo, em uma tentativa de fugir das sensações que haviam-na assaltado de súbito. Ao levantar-se da cama e perceber que já era quase noite, lembrou porque havia ido para debaixo dos lençóis. Quando acordara pela manhã, tinha estranhado tudo. Não reconheceu o apartamento onde morava e mal se lembrou de quem eram aquelas expressões surpresas que a encaravam. Decidiu ir caminhar e aproveitar o sol que se apresentava solícito.
Ao chegar na rua, o ar tinha outro cheiro e as árvores não estavam verdes da maneira que deveriam estar. Enquanto andava, observava pessoas em sua corrida matinal, outras preparando-se para ir ao trabalho e algumas ainda cuidando do jardim. Gostava de tudo aquilo, ficava curiosa com a vida de cada um dos observados. Mas nada lhe era familiar. Queria conversar, trocar idéias com alguém que lhe entendesse e compartilhasse de suas músicas preferidas, de seus filmes favoritos. Mas o amigo não morava mais ao lado, nem a amiga ou a mãe poderiam atender ao telefone naquele momento.
Por instantes, quis fugir da solidão, deixar para trás as pessoas com suas histórias de vida curiosas e as experiências que estavam por vir. Queria se livrar da vontade de conhecer novos lugares e voltar a locais e situações já conhecidos. Sentia falta de pessoas, de cheiros, de tons de vozes, de sons e canções. "O nosso amor já sabe ler e escrever. É grande o bastante pra deixar a gente viver".
Andou mais um pouco e desistiu de tentar encontrar algo que lhe remetesse a bons momentos. Nada mesmo lhe era familiar e ninguém parecia se importar com a tormenta que sentia internamente. Voltou para casa, deitou-se para ler o jornal do dia, mas não estava realmente preocupada com o que acontecia, e adormeceu. Foi quando pôde rever os amigos e viver em um local conhecido, com aromas e notas que já se tornaram imprescindíveis em sua vida.
Acordou. O mesmo apartamento agora tinha um ar diferente e as expressões antes não reconhecidas agora eram sorridentes - sorrisos que se tornaram familiares. Ligou o rádio e sem se preocupar com a surpresa que causaria, dançou, pulou e cantou: "Quando te vi, morri de rir da tua risada. Mal percebi, que além de ti, não via mais nada".
Érica França (trechos de "Sete Anos" - Ludov)
