O Livro dos Dias

terça-feira, abril 19, 2005

Sonho familiar

Espreguiçou-se e não soube por quanto tempo estivera dormindo, em uma tentativa de fugir das sensações que haviam-na assaltado de súbito. Ao levantar-se da cama e perceber que já era quase noite, lembrou porque havia ido para debaixo dos lençóis. Quando acordara pela manhã, tinha estranhado tudo. Não reconheceu o apartamento onde morava e mal se lembrou de quem eram aquelas expressões surpresas que a encaravam. Decidiu ir caminhar e aproveitar o sol que se apresentava solícito.

Ao chegar na rua, o ar tinha outro cheiro e as árvores não estavam verdes da maneira que deveriam estar. Enquanto andava, observava pessoas em sua corrida matinal, outras preparando-se para ir ao trabalho e algumas ainda cuidando do jardim. Gostava de tudo aquilo, ficava curiosa com a vida de cada um dos observados. Mas nada lhe era familiar. Queria conversar, trocar idéias com alguém que lhe entendesse e compartilhasse de suas músicas preferidas, de seus filmes favoritos. Mas o amigo não morava mais ao lado, nem a amiga ou a mãe poderiam atender ao telefone naquele momento.

Por instantes, quis fugir da solidão, deixar para trás as pessoas com suas histórias de vida curiosas e as experiências que estavam por vir. Queria se livrar da vontade de conhecer novos lugares e voltar a locais e situações já conhecidos. Sentia falta de pessoas, de cheiros, de tons de vozes, de sons e canções. "O nosso amor já sabe ler e escrever. É grande o bastante pra deixar a gente viver".

Andou mais um pouco e desistiu de tentar encontrar algo que lhe remetesse a bons momentos. Nada mesmo lhe era familiar e ninguém parecia se importar com a tormenta que sentia internamente. Voltou para casa, deitou-se para ler o jornal do dia, mas não estava realmente preocupada com o que acontecia, e adormeceu. Foi quando pôde rever os amigos e viver em um local conhecido, com aromas e notas que já se tornaram imprescindíveis em sua vida.

Acordou. O mesmo apartamento agora tinha um ar diferente e as expressões antes não reconhecidas agora eram sorridentes - sorrisos que se tornaram familiares. Ligou o rádio e sem se preocupar com a surpresa que causaria, dançou, pulou e cantou: "Quando te vi, morri de rir da tua risada. Mal percebi, que além de ti, não via mais nada".

Érica França (trechos de "Sete Anos" - Ludov)

segunda-feira, abril 04, 2005

Atitudes

O céu estava ficando cada vez mais escuro, o que não demoveu Matheus da idéia de caminhar pela avenida Paulista. Apesar do trânsito caótico e do ar "estressado" do local, ele gostava dali, sentia-se em paz e conseguia pensar. A imensidão dos prédios podia ser assustadora, mas ela o levava a olhar para o alto, coisa que ele raramente fazia. E vendo o céu, fazia-se perguntas que não podiam ser respondidas, mas que o faziam pensar na sua vida e no rumo que estava dando a ela.

Ao caminhar displicentemente, ora balbuciando suas conclusões a si mesmo, ora tentando se lembrar da canção preferida de alguns anos atrás, esbarrava nas pessoas. Percebia que nem todos tinham aquela calma e paciência que agora lhe acometiam. Via rostos cansados, olhares preocupados, feições sofridas e desoladas.

Por alguns instantes, tentou parar de procurar respostas completas para situações tão instáveis e passou simplesmente a ouvir. Ouvia de tudo e ria porque nada fazia sentido naquele local, naquele momento, naquela mente.

"Então, você a viu? Ela está namorando aquele cara mala do terceiro colegial?." "Onde vamos parar com estes preços tão altos?." "O CD atual dos caras não é tão bom assim, mas o que será lançado está prometendo." "Pois é, isto foi dito mesmo durante a reunião de ontem." "Não entendi, parece que precisa de uma fumaça branca para que o papa seja escolhido." "O time estava uma bosta, jogou mal mesmo, tinha que perder."

Tentando imaginar quem seriam aquelas pessoas e se elas teriam tantos problemas como ele, sentiu algumas gotas de chuva, que logo se transformaram em uma verdadeira tempestade. O trânsito já caótico ficou absurdamente confuso, as pessoas já estressadas tornaram-se ainda mais mal-humoradas e ele...bem, ele decidiu sentar sob um toldo e esperar que a chuva amainasse, para poder continuar caminhando.

Sob o toldo laranja da lanchonete, pensou nas conseqüências recorrentes da chuva, como enchentes e desabamentos, e ouviu, vindo de dentro da lanchonete, um garoto pedindo que lhe pagassem um pastel. Sentiu um aperto dentro de si. E não sabia se ficava feliz pelo sentimento de piedade ou se sentia mal com ele, culpado por tantos problemas à sua volta, como se não já lhe bastassem os seus.

Meia hora depois e a chuva parou. Matheus voltou a caminhar, falando sozinho, cantando, olhando para o céu, questionando-se sobre os próprios problemas, sobre as questões que pairavam sobre o mundo. Para ele, tudo parecia perdido.

Atravessou a rua. Em frente a uma árvore, avistou um menino. Parecia ter seus oito anos e tinha ao lado da mureta em que estava sentado, uma caixa de balas de goma. Provavelmente, estaria vendendo-as a mando de algum adulto inconseqüente, pensou. O garoto saboreava um cachorro quente, munido de uma vontade voraz. No entanto, apesar da visível fome, parou de comer quando um cachorro parou à sua frente, implorando-lhe com o olhar por um pedaço do sanduíche.

O garoto parou. Matheus também ficou paralisado na calçada, a alguns metros da cena, apenas observando seu desfecho. Nem a chuva, a fome, a vida nem sempre fácil tiraram a bondade daquela criança, que repartiu o pão e entregou a metade maior ao cachorro. O menino o observou comer e ainda lhe acarinhou a cabeça, como se pudesse entender o que se passava ali dentro. Levantou-se e se dirigiu ao farol, tendo o cachorro ao lado. Havia ganhado um novo amigo e exprimia alegria.

Na mesma mureta onde o garoto dividira a esperança com um pequeno animal, Matheus se sentou. E pensou que, na vida, não precisa pensar tanto assim. As atitudes frente às situações que se apresentavam é que realmente faziam diferença.