Atitudes
O céu estava ficando cada vez mais escuro, o que não demoveu Matheus da idéia de caminhar pela avenida Paulista. Apesar do trânsito caótico e do ar "estressado" do local, ele gostava dali, sentia-se em paz e conseguia pensar. A imensidão dos prédios podia ser assustadora, mas ela o levava a olhar para o alto, coisa que ele raramente fazia. E vendo o céu, fazia-se perguntas que não podiam ser respondidas, mas que o faziam pensar na sua vida e no rumo que estava dando a ela.
Ao caminhar displicentemente, ora balbuciando suas conclusões a si mesmo, ora tentando se lembrar da canção preferida de alguns anos atrás, esbarrava nas pessoas. Percebia que nem todos tinham aquela calma e paciência que agora lhe acometiam. Via rostos cansados, olhares preocupados, feições sofridas e desoladas.
Por alguns instantes, tentou parar de procurar respostas completas para situações tão instáveis e passou simplesmente a ouvir. Ouvia de tudo e ria porque nada fazia sentido naquele local, naquele momento, naquela mente.
"Então, você a viu? Ela está namorando aquele cara mala do terceiro colegial?." "Onde vamos parar com estes preços tão altos?." "O CD atual dos caras não é tão bom assim, mas o que será lançado está prometendo." "Pois é, isto foi dito mesmo durante a reunião de ontem." "Não entendi, parece que precisa de uma fumaça branca para que o papa seja escolhido." "O time estava uma bosta, jogou mal mesmo, tinha que perder."
Tentando imaginar quem seriam aquelas pessoas e se elas teriam tantos problemas como ele, sentiu algumas gotas de chuva, que logo se transformaram em uma verdadeira tempestade. O trânsito já caótico ficou absurdamente confuso, as pessoas já estressadas tornaram-se ainda mais mal-humoradas e ele...bem, ele decidiu sentar sob um toldo e esperar que a chuva amainasse, para poder continuar caminhando.
Sob o toldo laranja da lanchonete, pensou nas conseqüências recorrentes da chuva, como enchentes e desabamentos, e ouviu, vindo de dentro da lanchonete, um garoto pedindo que lhe pagassem um pastel. Sentiu um aperto dentro de si. E não sabia se ficava feliz pelo sentimento de piedade ou se sentia mal com ele, culpado por tantos problemas à sua volta, como se não já lhe bastassem os seus.
Meia hora depois e a chuva parou. Matheus voltou a caminhar, falando sozinho, cantando, olhando para o céu, questionando-se sobre os próprios problemas, sobre as questões que pairavam sobre o mundo. Para ele, tudo parecia perdido.
Atravessou a rua. Em frente a uma árvore, avistou um menino. Parecia ter seus oito anos e tinha ao lado da mureta em que estava sentado, uma caixa de balas de goma. Provavelmente, estaria vendendo-as a mando de algum adulto inconseqüente, pensou. O garoto saboreava um cachorro quente, munido de uma vontade voraz. No entanto, apesar da visível fome, parou de comer quando um cachorro parou à sua frente, implorando-lhe com o olhar por um pedaço do sanduíche.
O garoto parou. Matheus também ficou paralisado na calçada, a alguns metros da cena, apenas observando seu desfecho. Nem a chuva, a fome, a vida nem sempre fácil tiraram a bondade daquela criança, que repartiu o pão e entregou a metade maior ao cachorro. O menino o observou comer e ainda lhe acarinhou a cabeça, como se pudesse entender o que se passava ali dentro. Levantou-se e se dirigiu ao farol, tendo o cachorro ao lado. Havia ganhado um novo amigo e exprimia alegria.
Na mesma mureta onde o garoto dividira a esperança com um pequeno animal, Matheus se sentou. E pensou que, na vida, não precisa pensar tanto assim. As atitudes frente às situações que se apresentavam é que realmente faziam diferença.

6 Comments:
Oi Kika, menina qto tempo... E aí como vc tá? Preciso falar com vc, só falta tempo...
Nem preciso comentar sobre o que vc escreveu né, vc sempre escreve mto bem...
Um beijão... SAUDADES!
passa no meu flog.
Kika, que show! Muito bom texto! Parabéns! Não é à toa que tens uma mamy tão orgulhosa! Bjão
Oiii Ericaa... menina foi muito bom ter noticias suas... tava com saudades... e qto ao que vc escreveu hehe ja ate salvei aqui, lindo como tudo que vem de vc... beijinhos te adoro d+. Lika
Oi irmã...antes de ler seu texto, que nem precisa de comentários porque a grandeza está na singela das atitudes, e na simplicidade em dizer coisas complexas. Você, melhor que eu, sabe que são os detalhes que fazem diferença. E voltando à minha lembrança, retornava eu de Jacapau e na cabeça rondava um música. Ou melhor, o trecho de "Trocado no bolso". No refrão a Ziza Fernandes martela que "o amor não se dá por obrigação. É promessa de vida se doar pelo irmão". Acho que não preciso me alongar. Porque a felicidade pode estar no pastel doado tanto quanto no rosto feliz da criança toda lambuzada de sorvete de chocolate (prefiro de morango, passas ao rum). Agradecida pelo afeto do, "poxa, também te amo". Obrigada pelo amor incontido e pelo carinho esperado mas inesperado. Te amo muito irmã. Obrigada. Beijo grande. Ale
Se eu já me estresso em Ijuí, imagina em Sampa, Avenida Paulista
Estou acabando como A jornalista. Em breve vou arrumar um blog novo, além do cinemeira, pra escrever em alter-ego, pra me livrar dos conhecidos, que teimam em encher o saco. Então, caso queira o endereço quando ficar pronto, me mande um e-mail: jornalistamaite@walla.com
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